impulso nº 28 179 MEMÓRIA, HISTÓRIA E NOVAS TECNOLOGIAS Memory, History and New Technologies Resumo O presente artigo pretende analisar as relações entre as práticas historiográ- Wcas e as novas tecnologias, buscando problematizar as mudanças que esses novos meios de geração e transmissão de conhecimento trazem para essa disciplina. Cate- gorias como tempo, espaço e memória são colocadas em discussão por esses meios. Perguntas são lançadas a respeito, com a Wnalidade de propiciar uma reXexão e uma discussão que levem os historiadores a meditar sobre essa etapa de mudanças episte- mológicas.
Palavras-chave HISTORIOGRAFIA 3 SOCIEDADE TECNOLÓGICA 3 MEMÓRIA . Abstract This article tries to analyze the relationship between historiographical prac- tices and new technologies. It attempts to discuss the problem of the changes that these new means for the generation and transmission of knowledge bring to the stu- dy of history.
Categories such as time, space and memory are put into question by these new technologies. Questions are made in order to propitiate a reXection and discussion that bring historians to consider this moment of epistemological changes. Keywords HISTORIOGRAPHY 3 TECHNOLOGICAL SOCIETY 3 MEMORY .
E DUARDO I SMAEL M URGUIA Doutor em Educação pela Unicamp. Professor do Curso de História da U NIMEP murguia@uol.com.br R AIMUNDO D ONATO DO P RADO R IBEIRO Doutorando em Ciências Sociais da PUC - SP . Professor do Curso de História da U NIMEP rdonato@uol.com.br g g y 180 impulso nº 28 prática historiográWca na sociedade contemporânea está a exigir importantes considerações no que diz respeito ... more.
à forma como se pensa a si mesma.
Nesse sentido, o que signiWcaria fazer história, considerando que ela seja um elemento necessário para a construção de uma identidade coletiva num momento em que o esquecimento aparece como um novo valor? Longe de responder a esta pergunta, cuja complexidade extrapolaria os limites de uma primeira aproximação, trataremos de apresen- tar alguns problemas a serem debatidos com a Wnalidade de contribuir para a reXexão sobre o ofício do historiador. A obra de Tucídedes 1 que trata da Guerra do Peloponeso antevê uma concepção de história fundamentada na narração de acontecimentos que rompem o cotidiano, resgatando nestes acontecimentos o sentido de serem merecedores da lembrança pela sua grandiosidade.
Assim, o acontecimento é revestido de um valor: por ser extraordinário na manifestação de coragem do povo grego, torna-se exemplar e paradigmático, ou seja, torna-se pedagó- gico. A história passa a ter um sentido, uma utilidade. Ela é valorizada en- quanto educa, apresentando para as gerações futuras modelos de conduta de caráter moralista.
Nesse sentido, a história que nasce com Tucídedes aparece, desde o começo, instituída de uma prática pedagógica. Esse caráter pedagó- gico do que fazer historiográWco perpassou, com as conhecidas mudanças, parte considerável da história ocidental. Por exemplo, na Idade Média, a im- portância do acontecimento desloca-se para as biograWas e crônicas.
O cará- ter pedagógico da história manifesta-se nas hagiograWas, ou vidas de santos, ques têm um traço providencial e escatológico, servem como modelos de vida a serem seguidos pelos Wéis. Já na Renascença, continua a se revigorar a excepcionalidade dos acontecimentos e das personalidades, desta vez políti- cas e artísticas. No século XIX , assistimos importantes mudanças no ofício do histo- riador, tanto no objeto quanto na metodologia.
Ainda que nesse momento se produzisse uma história calcada num fazer histórico muito próximo aos já mencionados, a noção de acontecimento individual extraordinário amplia-se para o estudo do fato social. Da mesma forma, o método passa a ser consi- derado como destituído de qualquer mácula subjetiva. A história torna-se ci- ência objetiva, emprestando das ciências naturais critérios de aproximação para o social.
Porém, a objetivação do acontecimento torna-o manipulável, controlável, o que signiWca, também, pedagógico. Com efeito, toda vez que explica as causas e os efeitos de um acontecimento, pode servir como parâ- metro preventivo e deWnidor de políticas públicas, como foi o caso das in- tervenções nos espaços da cidade a partir de estudos históricos prévios. 2 1 TUCÍDEDES, 1987.
2 FUSTEL DE COULANGES, 1975. AA A A g g y impulso nº 28 181 A N ARRATIVA DA H ISTÓRIA Outro aspecto a destacar do fazer historio- gráWco nesse século está constituído pela ênfase dada à discursividade da narração histórica. A histó- ria sempre foi, em última análise, um contar de acon- teceres 3 embora nem todo acontecer seja contado e nem tudo o que se conta tenha acontecido.
Conto/ acontecer são dois aspectos de um ato só, enquadra- do dentro de um processo maior, o ato comunica- tivo, e permeado pelas mediações subjetivas e cultu- rais. Privilegiada como sua característica, ou mes- mo como parte da sua compreensão do escrever a história, as produções dos Annales 3 e, mais recente- mente, da sua variante nomeada Mentalidades não escapou desses ideais. Chega-se a posições como a de Peter Gay, 4 para quem a história é a maneira como o historiador constrói os fatos, o que signiWca que o estilo é a própria história.
Podemos, ainda, identiWcar duas formas de narrar. A primeira é a narração mítica, que se dá sob a forma de uma narrativa circular. Os acontecimen- tos contados são arquetípicos: atemporais, tempo sagrado que serve para reconstituir o tempo profa- no, este sim mutável e cronológico.
A narrativa mi- tológica é metonímica: ela é o próprio tempo sagra- do. O ritual narrativo não representa, ao contrário, ele atualiza, o tempo da criação. Na medida em que o tempo primeiro, o tempo da criação, é atualizado, presente, passado e futuro fecham-se no círculo que dilui as fronteiras que os separam.
Essa narrativa é oral. 5 O tempo arquetípico só existe no momento da recitação feita através da re- petição. Daí o desenvolvimento de técnicas mne- mônicas rigorosas, que faziam este tempo inalterá- vel.
Com o aparecimento da agricultura, novas per- cepções do tempo e do espaço se colocam, como o domínio do solo e a necessidade inerente a esse do- mínio da previsão do tempo de plantar e de colher. A partir desse fato, a complexidade nas relações possibilita o aparecimento do Estado, que precisa de meios que permitam o controle e o planejamento da produção e da população pela escrita. A segunda forma de narrar é marcada pela di- ferença entre a palavra e a escrita.
Ela elimina a me- diação do sujeito-intérprete, possibilitando uma nova mediação, do sujeito-leitor diretamente com o texto. Qualquer suporte onde o signo escrito se ma- nifeste, implica sempre um ordenamento linear que pressupõe a separação entre início, meio e Wm. Isso determina uma visão linear do tempo constituída pelo passado-presente-futuro, deixando para a his- tória a narração do passado.
A escrita possibilita, também, a datação, na medida em que prevê o tem- po do acontecimento, do tempo em que se escreve, do tempo em que o texto será lido. Se a história nasce com a escrita, lançamos a seguinte indagação: não seria contra-senso conside- rar a existência de uma história oral? Uma vez que o objeto da história é o passado 3 o que implicaria uma cronologia, não no sentido de uma seriação de datas, mas na ruptura de uma circularidade atempo- ral 3, sua narração precisa de uma linearidade que in- sere sua existência num passado, num presente e num futuro.
Não esqueçamos, também, a importância do suporte para a escrita. Todo texto, ao longo do tem- po, é materializado num objeto 3 argila, pedra, pa- piro, pergaminho, papel 3, que permite a perenidade do ato narrativo, tornando-se prótese da memória. A hermenêutica só é possível na medida em que um texto permanece.
A interpretação faz-se necessária para a leitura de um outro tempo no qual um texto aparece; isto indica o outro lado da historiograWa. O que fazer histórico não se esgota na escrita, mas se estende na recepção, na leitura, na interpretação do texto. A história só existe enquanto entendida como processo comunicativo.
Qualquer documen- to só adquire importância na medida em que é per- cebido, ou seja, na medida em que comunica. A partir da segunda metade do século XX , as- sistimos o aparecimento de um fenômeno tecnoló- gico que mudaria radicalmente a forma de geração e difusão do conhecimento, assim como nossa per- cepção da realidade: as novas tecnologias da comu- nicação e a informática. No que se refere à informá- tica, os próprios experimentos feitos na década de 3 BURKE, 1991.
4 GAY, 1990. 5 LÉVY, 1993. g g y 182 impulso nº 28 50 sobre a linguagem e a inteligência artiWciais apon- tam possíveis vias de compreensão a respeito das mudanças por ela gerada no campo cognitivo.
Sem entrar na questão especíWca do campo epistemoló- gico da informática, valeria olhar as suas implicações para o esquecimento do passado. Se a linguagem e a memória constituem, elas mesmas, a narrativa histórica, de que forma seria afetada essa narrativa com a criação de linguagens e memórias artiWciais? Entendemos linguagem artiW- cial como a linguagem das linguagens naturais, ou seja, como uma metalinguagem, e a memória artiW- cial como a memória das memórias.
Caberia inda- gar, então, qual o lugar a ser ocupado no campo his- toriográWco por essa metanarrativa. Toda narrativa é formada por uma mensagem e um código. Não existem mensagens de mensa- gens.
Mas podem existir códigos de códigos, como as metalinguagens. Desse ponto de vista, seria a in- formação uma metanarrativa? Sim, porque a infor- mática é capaz de transmitir qualquer mensagem, seja através da escrita, da imagem, do som e, mais re- centemente, do tato.
E também porque é capaz de traduzir qualquer código em código binário. Se num primeiro momento, a informação foi entendi- da cno seu signiWcado abrangente, isto é, de modo a compreender a comunicação, toda vez que não há informação fora de um sistema qualquer de sinais e fora de um veículo ou meio para transmitir esses si- nais. Em conseqüência, a nossa ênfase recairá sobre os aspectos sintáticos, formais e estruturais da orga- nização e transmissão de mensagens d.
6 Posteriormente, o signiWcado do conceito de informação Wcou restrito ao conhecimento gerado, armazenado e difundido pela computação. Num primeiro nível, isto signiWca a ênfase na sintaxe no seu aspecto formal, pela qual mensagens são cons- truídas a partir de modelos ou programas que pos- sibilitam inWnitas combinações de dados com signi- Wcados mínimos. As possibilidades de combinação trazem consigo uma nova concepção de Wnitude, no sentido que, mesmo sendo os programas possi- bilidades limitadas, nosso tempo torna-se insuWci- ente para esgotá-las.
Num segundo nível, isso signiWca também a peculiaridade que o suporte da informação traz con- sigo. Como vimos anteriormente, a durabilidade dos suportes da escrita e o fato de serem superfícies planas determinavam sua linearidade formal expres- sada na sintaxe, que por sua vez determinava a line- aridade expositiva (narrativa) das mensagens. Com a informática, desaparece a idéia do suporte.
Se pen- sarmos que a informação nada mais é que do sinais eletrônicos descontínuos, teríamos que ela se mani- festa intermitente e fugazmente. A informação, nesse sentido, torna-se uma latência inWnita, ou uma manifestação fugidia e efêmera. O que signiWca também que, pelo fato de não ter suporte, ela pode ter qualquer suporte.
Através dos bytes, a informa- ção pode ser armazenada em chips, manifestando- se nos pixels da tela ou na impressão. É justamente esta Xexibilidade, ou esta imaterialidade, que torna a informação veloz, bastando centésimos de segun- dos para intercambiar, alterar, diluir, combinar, mis- turar mensagens. Contraditoriamente, a miniaturização das memórias dos computadores possibilita a maximi- zação ad extremis da capacidade de armazenamento.
Se nossa memória é seletiva pelo fato de ser limita- da, a memória da informática é permissiva por ser ilimitada, o que signiWca que o excesso de dados guardados é, ao mesmo tempo, nenhuma mensa- gem lembrada. Memórias sem lembranças, infor- mações sem mensagens, signiWcantes sem signiWca- dos, a diluição do contexto. M EMÓRIA E N OVAS T ECNOLOGIAS A memória sempre desempenhou um papel fundamental na explicação do desenvolvimento da inteligência.
A partir dela, experiências podem ser acumuladas, readaptadas ou modiWcadas. Os gregos a chamavam de Mnemosine, Wlha do Céu e da Terra, amada por Júpiter durante nove noites, e que, de- pois de nove meses, deu à luz as nove musas: a da poesia, a da música, a da comédia, a da eloqüência, a da persuasão, a da sabedoria, a da história, a da ma- temática e a da astronomia. Desta forma, os gregos pressupunham a memória como fundamento es- sencial dessas valorizadas atividades.
6 PIGNATARI, 1991, p. 12. g g y impulso nº 28 183 A Igreja, que sempre valorizou a separação platônica entre corpo e alma, atribuía à alma três fa- culdades de entendimento: memória, razão e von- tade.
Um exemplo interessante acerca da idéia de memória nos inícios da modernidade é oferecido na obra de Matteo Ricci, O Palácio da Memória. 7 Quando o Padre Ricci aprimora técnicas mnemô- nicas que vinham desde a Antigüidade clássica, atra- vés da visualização de nomes e conceitos em nichos visuais especíWcos, procurava sistematizar as lem- branças dos dados da realidade. A própria idéia da memória como um palácio, ou seja, como prédio, signiWca que cada um dos cômodos, cantos, era par- te de um todo maior.
A memória precisava ser or- denada, requisito necessário para uma maior eWci- ência no acúmulo de conhecimentos. Outro aspecto a mencionar no Palácio da Memória é o referente ao emprego da memória vi- sual. Lembremos que as técnicas do Padre Ricci apontam para o uso da imagem como um referente que nos remete a dados cognitivos.
Em última ins- tância, essas imagens servem como espécies de cca- bides d onde os dados eram pendurados. A fragmen- tação a que podem levar as lembranças visuais era superada justamente por esse todo maior ao qual nos referimos e que era representado pelo palácio. Assim vemos que, tal e qual a escrita, o método do Padre Ricci apresenta uma continuidade com come- ço, meio e Wm.
Mesmo porque essa era uma forma de ordenamento constituído historicamente a partir de uma concepção temporal também histórica. Esse método só servia enquanto conexão ordenada de informação contida nas imagens, também previa- mente dispostas seguindo uma seqüência dada pelo sujeito. Com a informática, novas questões se colo- cam.
O acesso à memória da máquina é feito de ma- neira aleatória, independe de seqüência e de ordem para acessá-la. A informação contida é fragmentada não enquanto programa, mas pelas inWnitas combi- nações que o ordenamento lógico, elementar, do programa permite. A lembrança do computador é aleatória, qualquer dado serve a qualquer momento, sem se importar com a ordem ou a seqüência.
Aliás se alguma seqüência pode ser feita, ela é dada pelo sujeito, e não mais pelos objetos. O que signiWca um ordenamento subjetivo e relativo, e não mais absoluto. A memória da informática se preWgura como peças de quebra-cabeças, com a diferença de que os quebra-cabeças tradicionais só podem constituir uma imagem.
A lembrança da informática são peças de quebra-cabeças que permitem, simultaneamente, a criação de múltiplas imagens. Não possuindo su- porte, e sendo capaz de conter todas/nenhuma mensagem, os dados tornam-se Xexíveis e adaptá- veis a qualquer outro suporte ou mensagem. Enquanto o método do Padre Ricci aparece como uma necessidade para ampliar os limites de nossa memória, a memória nas novas tecnologias não precisa de métodos de lembranças.
Paradoxal- mente, a sociedade da memória de ampliação ilimi- tada, contraditoriamente destituída de lembranças, permite a negação do homem como suporte de sua memória. Se, antes, a memória estava em nós 3 e daí o por quê de desenvolver métodos mnemotécnicos 3, hoje, ela é separada do sujeito, tornando-se virtu- al. Contida numa máquina, a memória se objetiva, se afasta do sujeito.
Embora nossa memória seja uma, ela se adap- ta a diferentes circunstâncias. Entendidas como exercício da memória, as lembranças de fatos mar- cantes, por qualquer motivo, ao longo de nossas vi- das, sempre permanecerá, porque é o único meio que permite manter a identidade de cada um. Já as lembranças de um conhecimento constituído, cria- do, fora de nós e de nossa emotividade é um exer- cício mais complexo.
O conhecimento (dentro do qual incluímos a história) é ainda mais complexo, porque guardá-lo na memória requer aprendizado (atenção, abstração e repetição). Assumindo que o conhecimento seja cumu- lativo, um sujeito sem memória é um sujeito não cognoscente , pois, para conhecer, toda vez faz-se ne- cessário a memória. O conhecimento fundamenta- do somente na razão, entendido como exercício ló- gico, e que a informática potencia, é um conheci- mento incompleto.
O conhecimento precisa da memória e, nesse sentido, as novas tecnologias atu- alizam algumas de suas faculdades: nossas lembran- 7 SPENCER, 1986. g g y 184 impulso nº 28 ças são aleatórias, da mesma forma que as tecnolo- gias. Em outras palavras, estaríamos presenciando o nascimento de um novo tipo de conhecimento, para o qual as tecnologias da informação atualizam e reXetem as práticas da memória.
Apesar dessa possível vantagem, uma nova contradição aparece no campo cognitivo: se, por um lado, a memória eletrônica privilegia a razão, por outro, ela a nega toda vez que a fragmentação ignora a discursividade lógica formal do pensamento raci- onal. Por exemplo, categorias de pensamento como crítica e interpretação são dois pressupostos que esse novo tipo de racionalidade desconhece. Outra questão: a informática se adapta também a um ou- tro tipo de conhecimento que não o discursivo: o conhecimento sensorial, ou as formas de conhecer através de nossos sentidos.
Isto se estabelece com o aparecimento da multimídia, que possibilita a inte- ratividade do sujeito com o texto, seja escrito ou em imagens e sons. Aqui, o meio é fundamental desde o ponto de vista da manipulação, se tivermos em conta que antigos canais, como o livro ou o quadro, impossibilitavam qualquer alteração posterior. Embora os chamados meios de comunicação tenham se difundido anteriormente às novas tecno- logias, com a multimídia e o uso do computador pe- los veículos de comunicação de massa, a separação epistemológica entre eles e as novas tecnologias ine- xiste.
8 Mas o que interessa resgatar para nossa dis- cussão é o fato de que esses novos canais privilegiam um conhecimento sensorial, mais do que o racional. O apelo constante às imagens, ao som, em última instância, à mixagem desses dois elementos, possi- bilita uma maior integração dos nossos sentidos. Além do mais, esses meios possibilitam maior inte- gração e envolvimento, seja pela manipulação, seja pela interação com as mensagens que difundem.
Além de mudanças na recepção e na criação por meio da interatividade, as novas tecnologias também mudam um outro aspecto da criação, como o fenômeno recente da criação de imagens e sons digitais. Isso nos remete ao fato de considerar que tanto a imagem quanto o som eletrônicos dei- xam de ser representativos. Eles não representam mais um objeto ou um sentimento previamente existente.
Os programas ou modelos matemáticos se antepõem aos objetos. Nesse sentido, a imagem e o som digitais simulam a realidade, mesmo porque a precedem. 9 Falar acerca das novas tecnologias e das mu- danças que elas acarretam torna-se tarefa difícil de- vido às rápidas mudanças que elas provocam ao meio social e no interior delas mesmas.
Nos últimos quinze anos, temos assistido, quase sem perceber, rápidas variações nas novas tecnologias, tanto no que se refere à sua potencialidade, quanto no que diz respeito às relações homem-máquina (suas in- terfaces). Alguns anos atrás teria sido inimaginável a popularização do uso desses meios. Da mesma for- ma, hoje é praticamente impossível prever o que acontecerá.
H ISTÓRIA E N OVAS T ECNOLOGIAS Perante o anteriormente exposto 3 as formas como as novas tecnologias criam e difundem conhe- cimento, e o caráter pedagógico do que fazer histó- rico 3, caberia perguntar de que forma a história está conseguindo lidar com esta contemporaneidade. A informática coloca questões no âmbito do ofício do historiador, como esse referente à memória: Sistemas memoriais de acesso direto e de acesso seqüencial repetem substancialmente a proposta dos labirintos: também nesses casos trata-se de deslocarmo-nos (física ou metaforicamente) dentro de estreitos corre- dores. (...) No caso do sistema de acesso di- reto, podemos falar de labirinto unicursal: o objetivo é atingível desde o início e os erros não são possíveis (salvo o possível engano na auto posição do próprio objetivo); vice- versa, no caso do sistema ramiWcado, esta- mos diante de um Irrweg , conjunto dotado de cruzamentos múltiplos, de um só cami- nho aberto e de muitos caminhos fechados.
Curiosamente, a única forma que não se propõe, pelo menos do ponto de vista do acesso, é o rizoma (ou a rede) dentro do qual os ramos possíveis são inWnitos. 10 8 NEGROPONTE, 1995. 9 COUCHOT, 1993.
10 COLOMBO, 1991, p. 40. g g y impulso nº 28 185 Entendemos que a memória dos grupos soci- ais, por deWnição, é labiríntica.
Essa memória se constitui pelo acúmulo de fatos, pessoas, sonhos, mas a recuperação de qualquer um deles precisa de uma ordem para ser comunicada e acessada. Por exemplo, o percurso que fazemos para nos lembrar- mos das capitanias hereditárias na colonização bra- sileira exigiria um caminho: saber em que momento (cronologia) aconteceu, lugar, contexto, enWm, mí- nimas referências que permitam nos aproximarmos delas. Dentro do labiríntico caminho da memória, a história se coloca como ordenadora das lembranças a partir de registros e vestígios do passado, sendo que esses documentos exigem uma organização, possibilitada pelos arquivos.
Estes devem ser vistos como sistematização dos documentos, seja qual for o seu suporte. Em suma, a história trabalha com a idéia de um ordenamento possível de suas fontes 3 linear, lógico, formal, seqüencial 3 como forma de tornar legível a memória. Ao se tornar legível, a memória faz-se histó- ria.
É desta perspectiva que se deve compreender a idéia da discursividade da história. A memória, ma- terial com o qual o historiador lida, só é legível pela sua ctradução d em palavras, mais uma vez enquanto discurso. Discurso maleável, manipulável, normali- zado, porém disposto a ser arranjado de forma di- ferente por cada uma das pessoas (estilo) num su- porte físico (documento).
Segundo Colombo, com a informática, esta- ríamos assistindo a um novo tipo de acesso à me- mória, que não é a linearidade no caos do labirinto, mas a memória entendida como rede. Nesse senti- do, não se tem a idéia de entrada nem impedimen- tos no labirinto. Com a idéia de rede, todos os da- dos estão conectados: a partir de um é possível en- trar em todos, e nenhum deles impede de se entrar nos outros.
A memória-rede não precisa de uma or- dem prévia, é o próprio movimento desnorteado, no sentido de fragmentado. Num arquivo informatizado, o que existe são regras possíveis de combinação de dados. O docu- mento da informática são os próprios dados.
O conceito de dado remete-nos a peças de um conhe- cimento não mais orgânico, mas atomizado. Essas peças são passíveis de serem combinadas da forma que o usuário bem entender. O acesso pode ser fei- to de forma simultânea, enquanto que, feito ao mes- mo tempo, elimina-se uma ordem de entrada.
Quando McLuhan 11 aWrmou que o meio era a própria mensagem, estava querendo destacar a in- dissociabilidade entre o discurso e o canal por meio do qual esse signiWcado se manifesta. A história é construída a partir da linguagem, como qualquer outro tipo de saber. Sendo a escrita a materialização, o registro, a eternidade da linguagem, é fácil enten- der a história e sua relação com o documento escri- to.
A discursividade da história é constituída pela linguagem; ela tem um percurso temporal, linear, determinado pelo processo da leitura/escrita. O meio informático determina um outro tipo de conhecimento, não mais uma construção cogni- tiva na qual as partes são indissociáveis. Aparece o cconhecimento dado d, aquele que é pontual, inde- pendente, que se basta, embora escrito, visto, ouvi- do ou tocado.
Estaríamos perante um novo fenô- meno sobre o qual os historiadores ainda não reXe- tiram, uma história textual, apesar de não mais de- terminada pelo suporte?. As mudanças ocorreram tão rapidamente que nos pegaram despreparados. Despreparo talvez explicado pelo preconceito, ou calcado numa idéia ideologizada da informática por parte daqueles que a viam como mais uma estratégia do capitalismo selvagem, perdendo a dimensão do fenômeno histórico em que elas se inseriam, ou seja, o desenvolvimento tecnológico que já se anunciava no século XIX .
No cerne do desenvolvimento do ca- pitalismo tecnológico-industrial do século XIX já se anunciava a fantástica capacidade de adaptação dessa fase de capitalismo às contradições da história e seu deslocamento dela. As novas tecnologias e o tipo de sociedade a que estão dando lugar, através de mudanças cogni- tivas e perceptivas, fazem com que desapareça a bar- reira que delimitava passado e presente. E acrescen- tam o futuro dentro de um ceterno presente d.
En- tendemos que a separação de presente e passado es- teve sempre atuante na nossa percepção do tempo, e determinava o objeto de estudos de muitas áreas 11 McLUHAN, 1964. g g y 186 impulso nº 28 de conhecimento. Por exemplo, a história ou a his- tória da arte lidando com o passado, ou a sociologia e a crítica de arte lidando com o presente.
A infor- mática, os meios de comunicação e as tecnologias ópticas (microscópios e telescópios atômicos) de fato alteraram a nossa percepção da realidade, acres- centando um novo elemento, a velocidade. 12 Com o aparecimento da teleconferência, dos radares, dos satélites que possibilitam a presença instantânea de pessoas, lugares e acontecimentos, elimina-se a noção de espaço. O espaço, como lugar de separação entre culturas, é transposto por elas.
Um exemplo gritante foi a Guerra do Golfo, assis- tida momento a momento em todos os cantos do mundo. As novas tecnologias geram uma cultura que elimina também a noção de tempo. Isto se expressa, num primeiro nível, numa cultura narcisista, que não quer visualizar estragos do passado nem na W- sionomia (spas, cirurgias plásticas) nem na paisagem urbana (prédios ultramodernos).
O passado enver- gonha, depreciado por sua associação ao velho, ao atrasado, ao vetusto. E, num segundo nível, porque o conhecimento narrativo pressupunha a noção de presente, de passado e de futuro, devido a ele mes- mo transcorrer no tempo e, portanto, precisar desse engajamento cronológico; enquanto que o cconhe- cimento dado d, pelo fato de bastar a si mesmo, não necessita dessa divisão temporal e torna-se eterna- mente presente. E, num terceiro nível, porque, eliminando-se a noção de espaço, necessariamente elimina-se a no- ção de tempo, uma vez que estas duas categorias são indissociáveis toda vez que elas deWnem qualquer tipo de existência.
A simultaneidade acaba com o passado. Isto signiWca que, presentiWcando o passado na tela, atra- vés de imagens, elas se tornam presentes. E esta si- multaneidade acaba com a idéia de futuro, na medi- da em que tais tecnologias criam o sentimento de tudo ser possível.
O futuro entendido como possi- bilidade como meta a ser alcançada, como Wm a ser conseguido, não tem mais validade, pois elas nos dão a sensação de que é possível tudo: é a cultura da onipotência. Se, antes, algo era verdadeiro na história, isso ocorria pelo fato de ser explicado num tempo, num lugar determinado, devidamente documentado. O critério de verdade tinha de ser demonstrado.
Hoje, as novas tecnologias constituem-se no aval suWcien- te para depositarmos nossa conWança nas mensa- gens por elas geradas e transmitidas. O rigor cientí- Wco é trocado pela eWcácia tecnológica. No caso especíWco do computador, ele ofere- ce possibilidades inWnitas de armazenamento de in- formações.
Ao contrário do que ocorria antigamen- te, quando precisávamos de enormes áreas físicas para guardar documentos, nos dias atuais é possível fazê-lo em poucos milímetros quadrados. Porém, muita informação cai no pouco conhecimento. O conhecimento histórico-narrativo, repetimos, é fundamentalmente humano: sintético, analítico, abstrato, seletivo, relacional etc.
Já a memória muito próxima do cconhecimento dado d, enquanto ato de lembrança, pode delegar a função de armazenamen- to de dados, experiências, acontecimentos etc. à me- mória do computador. C ONSIDERAÇÕES F INAIS Perante as inquietações apresentadas, encon- tramo-nos com uma prática historiográWca que en- fatiza o conhecimento narrativo, esquecendo o pro- blema das novas tecnologias ou limitando-se, em muitos casos, a reproduzir a ideologia vazia e oca da informática como sinônimo de modernidade.
A chegada do computador signiWca, antes de mais na- da, saber lidar com um novo tipo de conhecimento, que, de certa forma, a televisão já anunciava, no sen- tido de imediatez e simultaneidade. A historiograWa tem sérios problemas a pen- sar, e não somente pelo fato de estar lidando com novos tipos de práticas cognitivas e memorísticas, o que signiWcaria a mudança de uma narrativa tempo- ral por uma narrativa espacial: construída a partir de pontos nodais. Isso representa, também, a possibi- lidade de estar lidando com novos paradigmas, não mais seqüenciais, mas velozes e simultâneos.
Esse é um problema delicado, uma vez que não dá para es- quecer a tradição no objeto e no ofício do historia- 12 VIRGILIO, 1993. g g y impulso nº 28 187 dor construída e sustentada ao longo de mais de dois mil anos: a historicidade da historiograWa. Acreditar na historicidade da historiograWa signiWca aceitar as possíveis mudanças de suas práticas e su- portes.
Acreditamos que respostas a essas perguntas só poderão ser tentadas e discutidas à luz de um princípio, este sim imutável: a historicidade da his- tória como disciplina. Cabe reconhecer esses acon- tecimentos como fatos inegáveis, com os quais a história terá que lidar desde já 3 o que signiWca que estará lidando com fenômenos históricos. Referências Bibliogra bcas BURKE, P.
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